Minha irmã e meu cunhado americano me proporcionaram inesquecíveis momentos nesta minha primeira viagem aos EUA, aquele tipo de lembrança na vida de uma pessoa que Chico Buarque, muito propriamente, chamou de tatuagem. Poder estar uma semana atrapalhando a rotina de uma casal na Los Angeles do começo do século XXI foi, para mim, um prazer tão grande quanto conhecer Nova York, senão maior porque, em se tratando de minha própria irmã, a tatuagem correspondente ficou com cheiro de carinho. Esse Jon, ele é ímpar. Uma das últimas coisas que ele me disse antes de minha volta para o Brasil foi a piada mais engraçada que já ouvi. É tão engraçada que eu só consegui dar a ela o verdadeiro valor dois dias depois, já no Brasil. Mas antes de contar a piada, quero falar da Claudia. No final a gente faz algum tipo de enquete para votar em quem é mais maluco, ela ou o Jon.
Um dado importante a respeito da Claudia é que ela, na infância, era muito tímida, e até se casar com o Jon, era dentista. E que na época em que se casaram, Claudia já andava há algum tempo descontente com a profissão. E que depois de anos de farra, estava na hora de se apaixonar. Não quero dizer sua idade, apenas que é dois anos mais velha que eu, que tenho hoje 42. Ela me apresentou o Jon nos dias que eu me separava da Daniela, portanto em 2001. Fomos ao cinema ver não lembro o quê, e eu fui logo com os cornos do sujeito, posto que americano. Nem precisava muito: um cara que fez parte da equipe de computação gráfica do filme Matrix era namorado da minha própria irmã!
Jon é de Wisconsin, segundo ele a terra do “verdadeiro” queijo – o cheddar. Americanos, you know. Veio morar no Brasil no final dos anos 90 para, entre outros motivos, trabalhar na Tibet filmes, uma subsidiária da produtora Mega, acompanhando seu amigo João, que retornava ao país natal. Conheceu a Claudia nas noites do Rio – Baixo Gávea, se não me engano, e começaram a namorar. A coisa foi ficando, com o passar dos anos, esquisita: estava dando certo! O português do Jon, lapidado por árduos anos de convívio com a língua de Camões, tinha umas seis palavras – atualmente, 37 nos dias de chuva – então nós, irmãos, brincávamos que o Jon não entedia nada do que a Claudia dizia, e só a Claudia entendia o que o Jon falava. Eram, portanto, o casal perfeito.
A primeira parte da suspeita pôde ser confirmada pela história que a própria Claudia conta. Logo que ela se mudou para os EUA, o casal foi viajar de carro. Sempre que Jon corria muito, ela dizia para ele “devagar...”, e ele acenava. Até que na décima vez que ela disse “love-love, devagar...”, Jon finalmente desistiu:
– What is “devagar”?
Quanto a ninguém entender o Jon, essa é mole. O cara já foi engenheiro químico, punk e yuppie, é surfista, lê Dostoievsky, conversa sobre qualquer assunto e acalenta eternamente o sonho de viciar-se em alguma coisa. Experimenta de tudo que está ao seu alcance, além de outras que estão fora, o que torna ainda mais difícil interpretá-lo. Só amando mesmo.
Enquanto empregado no Brasil, Jon alugava uma cobertura duplex na Gávea, onde dava ótimas festas. Um belo dia chegou para mim e disse que queria fazer umas jam-sections nos finais de semana. Em 2002, montamos uma banda, altamente duchampriana, que, nos piores momentos, chegou a ter dois tecladistas (eu e Alexandre Contador), um guitarrista (Jon), vocalistas (Claudia e eu), baixista (Flávio Mario) e um DJ pilotando efeitos especiais num Mackintosh (João Dias). De 40 horas de ensaios, foram obtidos uns 6 minutos de qualidade. Parece pouco, mas foram 6 minutos gloriosos para a energia musical que sobrevoa o planeta. O estilo, hip-hop progressivo ou, para os íntimos, hip-rog, era inédito na história, com longos, longuíssimos, por vezes infindáveis solos de teclado do Alexandre. Um dos grandes minutos veio com a adaptação, para um ritmo digital pesado e contorcido, de uma tradição oral de minha família, uma cantiga indígena que suspeito ser espúria, cuja letra diz assim:
Tum Tum jacatunga-tê, esquindô jabaritê, jacatunga-tinga! Uê samaberebaba esquitum jabaritê jacatunga-tinga!
Até agora, descobri que se trata de uma música do folclore sulafricano, gravada pelo extinto grupo Virgulóides, com uma letra diferente, intitulada Dum Dum. Se alguém souber mais alguma coisa, a família agradece.
Acontece que a empresa do Jon foi fechada. Além disso, Jon estava ficando defasado no tipo de conhecimento que tem, e estava longe do grande mercado consumidor de suas habilidades, basicamente o hemisfério norte, e o casal se viu no dilema: como se manter no Brasil? A solução foi morar nos EUA.
O festejado casamento, porém, tinha que ser em Piraí, uma cidadezica no interior do Rio que está no coração de minha família há quatro gerações. A família do Jon – seu irmão, seu pai e a madrasta (sua mãe faleceu quando ele nasceu), que nos EUA moram em cidades distantes – também veio para a farra. O evento legal se deu no cartório da cidade: oito casais, alguns bastante humildes, um sem dentes, e dentre eles aquela dentista branca azeda e aquele americano com dreadlocks nos cabelos louros. A juíza, louríssima, bronzeada e divertida, teve a delicadeza de convocar uma mocinha de Piraí para traduzir a missa para o inglês. Para tal mocinha, e também para todos os presentes, foi um momento daquilo que os cristãos chamam, muito propriamente, de glória.
Então passei uma semana com esse casal. Eles vivem em Venice Beach, cidadezinha praiana mais ou menos chique colada em Los Angeles. Claudia está largando pouco a pouco a carreira de odontologia e desenvolvendo, rapidamente, uma nova carreira, de esteticista. Nunca ficou muito claro para família o porquê desta mudança, mas agora não tenho mais dúvidas: Claudia não agüentava a vida de dentista – até mesmo porque estava matando sua coluna – e acha, com razão, que com a experiência em estética facial que está acumulando, tem maiores e melhores chances de trabalho no mercado americano, e mais ainda no brasileiro, caso tenha que voltar. Claro que tamanha transformação aos 40 do segundo tempo traz para qualquer um compreensíveis ansiedades, que a Claudia vem enfrentando com admirável coragem e determinação.
Para o Jon, trabalho não parece ser seu problema. Já residiu (às vezes por pouco tempo, 3 meses) em lugares bastante diferentes como o Brasil, Índia e Austrália, além dos EUA, claro, sempre com trabalho. Há pouco tempo largou a Sony, onde participou de filmes como O Expresso Polar e Casa Monstro, porque o trabalho era excessivo. Atualmente, trabalha como freelancer em projetos e empresas produtoras menores, o que vem lhe permitindo dedicar-se a sua paixão atual, o surf.
Ou seja, os dois estão ralando como todo mundo. Mas na semana que passei com eles, ambos estavam praticamente de férias. Então me levaram para passear nas praias e comi nos melhores restaurantes japoneses de Los Angeles, como o Matsuhisa (do renomado chef Mobu). Conheci grandes amigos do casal, como Stuart, Ken Ibrahim, Creg, a italiana Monica e a alemã Zimona. Fomos a Las Vegas, treinamos golfe, fomos praticar tiro em clube de tiros, comemos grilos em restaurante no aeroporto de Santa Monica, percorri as famosas Sunset, Hollywood e Beverly boulevards, passei em frente ao Kodak Theater, onde é realizada a festa do Oscar, enfim, vejam fotos no meu álbum virtual http://www.flickr.com/photos/marcosgonzalezrj.
Mas o mais legal foram as situações que a gente sonha em ver ao vivo, mas imagina que só se transformando numa mosquinha. Foi ter disputado com eles o banheiro (a terceira coisa que a Claudia me perguntou assim que a revi, após dois anos, foi “a que horas você caga?”), ter lavado minhas cuecas na lavanderia do condomínio, ter visto vídeos no YouTube e ouvido o show de blues do Joe, irmão do Jon, no Second Life. Ter dormido no trambolho de uma cama de ar, que tínhamos que encher à noite e esvaziar toda manhã (a cama cheia no meio da sala durante o dia era, pelo que entendi, motivo de separação), e conquistado, dia após dia, a confiança do “bebê-gato”, que na última noite dormiu comigo (refiro-me ao Aki, não ao Jon). Ter acompanhado uma deliciosa porém ferrenha disputa pelo filme que iríamos assistir naquela noite de preguiça - o da Claudia era sobre uma escritora deprimida e suicida; o do Jon era de mortos-vivos que comem cérebros de não suicidas.
A piada do Jon é a seguinte: Você pergunta ao ouvinte “qual a pior parte de ser um (aqui você pode incluir qualquer atividade ou profissão, de preferência a do ouvinte, como por exemplo designer ou patinador)?” A pessoa diz qualquer bobagem, e você responde: “É contar a família que você é gay”. O Jon já passou um dia inteiro aplicando a filosofia desse chiste num ambiente com profissionais masculinos de computação, mas parecem haver indícios de que ele faz efeito também em botecos.

Um filme: Não é toootalmente astonishing, mas “La Vie em Rose”, filme biográfico sobre Edith Piaf, vale a pena pela atuação de Marion Cotillard, que parece incorporar a cantora francesa (edithpiafmovie.com). Bacana e estranho também foi ver Macunaíma num cinema todo americano, gigante e lotado. Não consigo imaginar o que deve ter passado pela cabeça daquela gente vendo aquele destrambelhamento total. E Dina Sfat, hum, no auge de sua beleza...
Para começar, a revista publica alguns relatos de novaiorquinos que vivenciaram suas fantasias. Audacia Ray, que andava entediada com sua vida de sexo grupal, narra sobre a noite feliz em que foi duplamente penetrada, isto é, penetrada ao mesmo tempo (DP para os íntimos, muito íntimos), pelo namorado e uma amiga do namorado, como ilustra a foto acima, tirada da própria revista. Em outro relato, Samantha Jones, estressada com assuntos de dinheiro e carreira, queria porque queria experimentar um “splosh”, ou seja, sexo lambuzado com alimentos. Na dúvida sobre o que usar, ela e seu namorado foram ao supermercado e compraram pudim de baunilha e espaguete com molho de tomate, descartando o chocolate e o chantilly por serem muito clichê. Como se pode imaginar, a trepada foi desastrosa, mas o casal conseguiu obter boas risadas e um quarto imundo ao final da experiência. Zippy Reynols queria fazer sexo em público, e o fez, num campo de baseball, às duas da manhã, com alguém que conheceu num bar. Tess Danesi queria ser estuprada, e combinou tudo com o namorado, mas ele o executou com tanta veracidade que ela ficou com medo dele. Kay Poison, por sua vez, queria apanhar, ser chicoteado e humilhado por uma fêmea em um ritual sadomasoquista, e para tal contratou Mistress Coraline. A lésbica Pamela Marks queria transar com uma prostituta transsexual. Alpinia Dean fez sexo com sua bicicleta. As histórias são ilustradas por fotos picantes, enriquecidas por comentários de James Bufalino, hilariante comentarista sexual da revista.
Mas, como disse, tudo isso é desnecessário. Nas outras duas vezes que fui ao MoMA, sempre no sextão livre, cheguei à cinco. Nessa hora, as mocinhas da recepção já estão recompostas e penteadas e a súcia, exausta, não agüentando olhar mais nenhum quadro, pode ser até do Papa em pessoa, e sentam-se todos diante do chato do Monet, fingindo que estão apreciando suas impressões sobre plantinhas e laguinhos, quando na verdade estão que não se agüentam com a coluna variando, as varizes latejando, os calos gritando e os pés fervendo dentro daqueles malditos scarpins – quem foi a besta que falou para vir de scarpin?
Como eu disse no início deste, no entanto, eu também venho sofrendo o transtorno do frenesi fotográfico. Portanto tenho centenas de fotos para mostrar para os parentes e amigos. Ao invés de importuná-los com sessões infindáveis – “aqui, sou eu comendo tomando cerveja da China”, “este sou eu na Estátua da Liberdade”etc. – resolvi explorar mais uma ferramenta desses tempos modernos, criando o maravilhoso álbum de fotografias de minha viagem na internet, cujo endereço é 


